segunda-feira, 29 de julho de 2013

11. AS DIRETRIZES DO CAPITALISMO TRABALHISTA OU POSSÍVEL QUARTA GERAÇÃO DO CAPITALISMO EM 7 PONTOS PRINCIPAIS.


Como dito antes no corpo deste trabalho o capitalismo trabalhista ficou caracterizado no passado como ações pontuais tais como: propriedade de empresas pelos trabalhadores e compra de ações das empresas pelos trabalhadores, participação nos lucros e resultados entre alternativas todas no sentido de dar maior participação e direitos aos trabalhadores e mais equilíbrio na relação capital-trabalho.
Aqui entendemos que o que foi denominado capitalismo trabalhista poderia evoluir com mais um instituto o da propriedade privada do emprego, e ainda agregar outros que seriam necessários para transformá-lo em uma verdadeira ideologia ou sistema político-econômico de características centristas, mas também o capitalismo trabalhista por outro aspecto não deixaria de ser um possível estágio futuro do atual capitalismo.
 Antes de tudo é necessário entender em primeiro lugar em que estágio o capitalismo a sociedade mundial estaria atualmente.
SANTOS ao estudar o paradigma da modernidade nos dá uma boa referência neste sentido:

No campo jurídico e político, a “prova real” do paradigma da modernidade ocorre no século XIX. É justamente nesse período que o capitalismo se torna no modo de produção dominante nos países centrais e que a burguesia emerge como classe hegemônica. Daí para a frente, o paradigma da modernidade fica associado ao desenvolvimento do capitalismo. Seguindo a proposta inicialmente apresentada por Hilferding, e continuada por Offe e outros, divido esse desenvolvimento em três períodos. O primeiro, o período do capitalismo liberal, cobre todo o século XIX, embora as três últimas décadas tenham um carácter de transição; o segundo, o período do capitalismo organizado, começa nos finais do século XIX e atinge o seu desenvolvimento máximo no período entre as duas guerras e nas duas primeiras décadas do após-guerra; finalmente, o terceiro período, o do capitalismo desorganizado, começa nos finais dos anos 60 e ainda continua.[...][1]

Estaríamos segundo SANTOS no terceiro período ainda inacabado do que ele denomina de capitalismo desorganizado.
Embora SANTOS analise os três períodos do capitalismo, o capitalismo liberal, organizado e desorganizado em relação ao direito principalmente, sua análise é útil para a compreensão desses períodos. Em relação ao primeiro, o capitalismo liberal, relata com suas palavras:

O Estado constitucional do século XIX é herdeiro da rica tradição intelectual descrita na secção anterior. Contudo, ao entrar na posse desta herança, o Estado minimizou os ideais éticos e as promessas políticas de modo a ajustar uns e outros às necessidades regulatórias do capitalismo liberal. A soberania do povo transformou-se na soberania do Estado-nação dentro de um sistema inter-estatal; a vontade geral transformou-se na regra da maioria (obtida entre as elites governantes) e na raison d´etat; o direito separou-se dos princípios éticos e tornou-se um instrumento dócil da construção institucional e de regulação do mercado; a boa ordem transformou-se na ordem tout court.[...][2]

É interessante notar também que esse movimento identificado por SANTOS da separação do direito e da ética, por exemplo, ocorreu também em outras áreas científicas como na economia, por exemplo, onde também se tentou separar as causas e efeitos econômicos dos seus princípios éticos.
Em relação ao segundo estágio, o do capitalismo organizado, SANTOS demonstra sua posição:

Relativamente aos países centrais do sistema mundial, pode em geral afirmar-se que o período do capitalismo organizado foi, efectivamente, uma idade positiva em sentido comteano. Tal como qualquer adulto sensato e maduro saído do Cours de Philosophie Positive, este período começou por distinguir, no paradigma da modernidade, entre as promessas que podiam e as que não podiam ser cumpridas numa sociedade capitalista dinâmica. Seguidamente, concentrou-se nas primeiras e tentou, através da socialização e da inculcação cultural, eliminar as segundas do universo simbólico da práxis social e cultural. Por outras palavras, começou por reconhecer a idéia de que o défice no cumprimento de promessas era inevitável e irreversível para depois eliminar a própria noção de défice. [...] [3]

É interessante a questão do capitalismo organizado onde SANTOS demonstra que nesse período houve uma maior articulação do capital e do trabalho no sentido de negociações que levaram a um maior equilíbrio:

[...] Nos finais do século XIX, este panorama jurídico e político alterou-se dramaticamente, sobretudo devido ao crescente domínio do modo de produção capitalista, não só sobre as relações económicas, mas também em todos os aspectos da vida social. A concentração e centralização do capital industrial, comercial e financeiro, a proliferação de cartéis e monopólios, e a separação entre propriedade jurídica e controlo económico ilustraram a extraordinária expansão do princípio do mercado, ao mesmo tempo que puseram fim ao mercado competitivo e auto equilibrável. Além disso, o alargamento do direito de voto e a organização dos interesses sociais sectoriais (muitas vezes antagónicos) em organizações patronais e sindicados evidenciaram ainda mais o carácter classistas da dominação política. À medida que as práticas de classe se traduziram em política de classe, os sindicatos e os partidos operários entraram na cena política, até então exclusivamente ocupados pelos partidos oligárquicos e pelas organizações burguesas.[...][4] 

Ainda em relação ao capitalismo organizado SANTOS demonstra uma das transformações importantes deste período principalmente na nova interação entre o capital e o trabalho:

A segunda transformação foi o reconhecimento político das externalidades sociais do desenvolvimento capitalista – a politização de algumas dimensões da “questão social” -, reconhecimento resultante da expansão do processo político desencadeado pela extensão do direito de voto aos trabalhadores e pela emergência de poderosos partidos operários. A politização da desigualdade social envolveu a intervenção do Estado na relação salarial e no consumo colectivo: segurança do emprego, salários mínimos, subsídios e indeminizações aos trabalhadores, fundos de pensões, educação pública, saúde e habitação, ordenamento do território e planeamento urbanístico, etc..Estas medidas foram tão radicais e resultaram de um pacto social (entre o capital e o trabalho, sob a égide do Estado) tão inédito que conduziram a uma forma política nova: o Estado-Providência.[5]

Outra contribuição importante deste segundo período o do capitalismo organizado para o paradigma da modernidade nos é dado a seguir por SANTOS:

Apesar de tudo, é indiscutível que no período do capitalismo organizado a dimensão político-jurídica do paradigma da modernidade foi totalmente redefinida para conciliar objectivos antagónicos e equilibrar interesses que o período anterior considerava insusceptíveis de conciliação e de equilíbrio. Conciliar e equilibrar implicava, também, reduzir os ideais de emancipação a proporções realistas, e as opções de princípio a compromissos contingentes. Solidariedade, justiça e igualdade podiam ser compatíveis com autonomia, identidade e liberdade, desde que cada conjunto de valores, aparentemente incompatíveis, fosse reduzido ao que era realisticamente exeqüível numa sociedade capitalista. Desta forma, seria possível, nos países centrais, cumprir, em maior ou menor grau, duas promessas “realistas”: a promessa de uma distribuição mais justa dos recursos materiais e a promessa de uma maior democratização do sistema político. Compatibilizou-se o cumprimento da primeira com a vigência de uma sociedade de classes, e o cumprimento da segunda com a vigência de uma política liberal burguesa. Através de uma política de hegemonia foi, então possível converter esta forma particular de compatibilização – no fundo, uma entre muitas outras – na única legítima e, até, na única concebível. Esta conversão significou o triunfo do reformismo sobre a revolução, facto simultaneamente patente na gradual, mas constante, marginalização dos partidos comunistas e na transformação dos partidos socialistas em partidos social-democráticos.[6]

O próximo e último período seria o do capitalismo desorganizado, que perdura atualmente e seria uma espécie de período de transição. Mas  SANTOS demonstra que essa denominação merece atenção, e nada melhor que os próprios dizeres do autor para explicar a própria definição:

[...] A expressão capitalismo desorganizado significa, em primeiro lugar, que as formas de organização típicas do segundo período estão a ser gradualmente desmanteladas ou reconstituídas num nível de coerência muito mais baixo, e, em segundo lugar, que, precisamente por esse processo estar a decorrer, é muito mais visível a demolição das antigas formas organizativas do que o perfil das novas formas que irão substituí-las.
Um sinal de que o capitalismo está actualmente mais bem organizado do que nunca é o facto de ele dominar todos os aspectos da vida social e ter conseguido neutralizar os seus inimigos tradicionais (o movimento socialista, o activismo operário, as relações sociais não-mercantilizadas). Em todo caso, essa organização é ainda muito opaca, e aquilo que já é visível parece bastante provisório, como se estivesse apenas a preparar caminho para as instituições, as regras e os processos que hão-de constituir o novo modo de regulação. Neste sentido muito específico, é legítimo designar a nossa época por capitalismo desorganizado, um período de transição de um regime de acumulação capitalista para outro ou, como adiante propomos, de uma transição muito mais vasta de um paradigma societal para outro”.[7]

Embora SANTOS defenda sua própria visão de futuro, discordamos apenas de um aspecto que ele defende no sentido de que o capitalismo teria tido sucesso em ter neutralizado os seus “inimigos”.
Em nossa opinião não foi especificamente o capitalismo que conseguiu vencer, mas as próprias ideias socialistas e comunistas ruíram de dentro para fora, numa espécie de implosão.
Foi uma tentativa frustrada de superação do capitalismo que resultou em problemas práticos de tal ordem que por esse mesmo fator fora marginalizado.
Entendemos que por extrapolar o valor da igualdade, por si só houve o desgaste prático destas utopias de esquerda desvalorizando todo o movimento do trabalhismo em si e, como consequência, houve um espaço ideológico vazio que novamente fora preenchido pelo capitalismo já que a tentativa de mudança fracassara.
Resumindo a uma personificação simples é como se todos trabalhadores e toda a esquerda mundial apostassem todas suas fichas no comunismo e socialismo e com a queda, o adversário (no caso o capitalismo), voltou a ganhar campo, mas não por imposição deste, mas, mais por culpa daquele (das ideologias esquerdistas). 
Portanto entendemos que o capitalismo trabalhista seria mais que uma renovação da esquerda mundial, uma verdadeira revalorização do valor do trabalho no âmbito das relações sociais, econômicas, jurídicas e políticas e não uma simples revisão ou tentativa de reintrodução da época do capitalismo organizado onde o capital e trabalho tinham pactos mais efetivos e equilibrados.
Para esse objetivo foram idealizados sete pontos principais ou preceitos básicos que serviriam de norte em uma possível hipótese de aplicação prática do capitalismo trabalhista como ideologia, sistema político-econômico ou possível quarta fase do capitalismo, composta pelo capitalismo liberal, organizado, desorganizado e podendo culminar ou não no capitalismo trabalhista. Mas antes, apresentaremos um breve estudo sobre onde à teoria do capitalismo trabalhista iria se inserir na área científica das Relações Internacionais, caso fosse implementada internacionalmente.



[1] Ibidem 139.
[2] Ibidem 140.
[3] Ibidem 145
[4] Ibidem 147
[5] Ibidem 148
[6] Ibidem 148,149
[7] Ibidem 153

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