segunda-feira, 29 de julho de 2013

9.4 PARADIGMAS DA ADMINISTRAÇÃO DOS “RECURSOS HUMANOS” OU “CAPITAL HUMANO”


Para resumir a evolução do trabalho sob a ótica da ciência administração, dentre outras vertentes, utilizaremos o artigo “A DESUMANIZAÇÃO DO TRABALHO E DO TRABALHADOR” elaborado por MICHELLE PARANHOS, BRUNO MIRANDA NEVES, E SIMONE SILVA.
Para tentarmos compreender a evolução do trabalho e se seria possível à criação de uma nova ideologia de centro, conciliadora entre o capital-trabalho unindo os ideais de propriedade-estabilidade, precisamos também entender a ótica da Administração como ciência, para entender a evolução da exploração capitalista da classe trabalhadora mundial e como ela se legitimou na sociedade através de paradigmas, ideologias (conjunto de conceitos) e jargões empresariais aumentando a alienação dos trabalhadores e criando o conceito atual dos “recursos humanos ou capital humano” a serviço da ideologia capitalista.
Em primeiro lugar, PARANHOS (et al) demonstra a evolução das ideias de TAYLOR que influenciaram de modo decisivo nas teorias da ciência da administração:

A partir das teorias apresentadas pelo engenheiro americano Frederick W. Taylor no final do século XIX desenvolveu-se um sistema de organização da produção baseado no estudo dos movimentos e do tempo e na observação da forma como os trabalhadores realizavam suas atividades, denominado também administração científica. Os princípios fundamentais da administração científica consistem no trabalho padronizado, uniforme, com a previsibilidade do rendimento, através da transformação da experiência dos trabalhadores em dados objetivos, com características do método científico. A partir da análise da experiência prática dos trabalhadores e das tarefas simples que cada um desempenhava na produção, Taylor transformou cada movimento do processo de produção em rotinas calculáveis e padronizáveis, dessa maneira o conhecimento dos trabalhadores era expropriado, sistematizado, elaborado e devolvido sob a forma parcelada.[1]


TAYLOR, portanto foi um dos idealizadores da chamada “administração científica” na tentativa de trazer mais cientificidade ou objetividade para a administração, que depois foi influenciada também pelas inovações trazidas por HENRY FORD:

Nas primeiras décadas do século XX, soma-se às práticas tayloristas a aplicação de métodos introduzidos por Henry Ford na indústria automobilística. A principal inovação do fordismo em relação ao taylorismo foi a introdução da linha de montagem. O controle do tempo de execução das tarefas é aprimorado e rigidamente estabelecido pela velocidade de deslocamento da linha de montagem, as etapas do trabalho mecanicamente controladas transformam a disciplina no eixo central do processo de produção. A máxima abreviação e simplificação das tarefas introduzidas pelo taylorismo e reforçadas pela linha de montagem fordista têm como objetivo aumentar a velocidade e a intensidade da produção, diminuindo a porosidade, obrigando o trabalhador a adequar-se à velocidade da máquina no limite de suas possibilidades físicas.[2]


Desta maneira os dois movimentos conhecidos como fordismo e taylorismo respectivamente foram amplamente difundidas no meio empresarial e, PARANHOS (et al) citando DINA comenta a contribuição dessa alienação do trabalhador por parte do capital como um complemento ao reforço do consumo de massas:

Dina (1987) afirma que à primeira vista o fordismo poderia ser considerado como a aplicação do taylorismo em grande escala, mas que se ater a essas considerações pode ser extremamente limitante para a análise dos paradigmas de produção, pois ao mesmo tempo em que alguns pressupostos tayloristas são levados ao limite extremo outros começam a ser desmantelados. Mas há um aspecto ainda mais fundamentalmente característico do fordismo: a ótica taylorista se fecha no interior do local de produção; é um postulado de que o aumento da produção seja positivo para todos. Para Ford, ao contrário, por um lado o mecanismo de adesão se fecha no exterior da fábrica, através da proposta não só de um maior consumo, mas também de um modelo de consumo análogo àquele das classes dominantes; por outro lado os níveis salariais possibilitam o “mercado” de massa desse mesmo consumo (DINA, 1987, p.83).[3]


Em seguida PARANHOS (et al) demonstra como o sistema fordista entrou em crise devido ao desmantelamento do Estado de Bem-Estar promovido por aqueles que defendiam que a crise dos anos 1970 era resultado da existência do próprio Estado de Bem-Estar, onde a relação capital-trabalho passavam por um momento mais conciliador:

Em outros níveis, a crise dos anos 1970 desmontou as estruturas que forneciam as bases políticas e econômicas para o sistema fordista e, além disso, asseguravam que as massas pudessem ter acesso aos bens produzidos em grande escala. Os dispositivos de intervenção econômica e social do Estado de Bem-Estar são pontados por aqueles que defendiam a auto-regulação do mercado como as causas principais da crise econômica.[4]


Para entender melhor o contexto histórico do Estado de Bem-Estar e a própria definição PARANHOS (et al) comenta:


O Estado de Bem-Estar Social surgiu na Europa, após a Segunda Guerra Mundial, a partir das teorias desenvolvimentistas e de modernização, com o objetivo de atuar como uma rede de segurança social e econômica, garantindo direitos sociais de educação, saúde, transporte, moradia, garantias de emprego e seguro desemprego, além de organizar e regulamentar a atividade econômica. E também como elemento de proteção social diante da ameaça real do socialismo após a revolução de 1917 e das lutas travadas entre o capital e o trabalho nos países do capitalismo central.[5]


Como é possível depreender o Estado de Bem-Estar durou bastante tempo e foi considerado produto da Era de Ouro do capitalismo segundo PARANHOS (et al) apud HOBSBAWN:

Após um longo período de êxito, que se estendeu até a década de 1970, no qual se constitui o crescimento mais rápido da história do capitalismo avançado, “as políticas econômicas da Era de Ouro pareceram fracassar” (HOBSBAWN, 1995, p.245), o mundo capitalista caiu numa longa e profunda recessão, combinando altos índices de inflação e baixos índices de crescimento econômico. Os ideais neoliberais, que já se formavam desde a década de 1940, ganham expressão neste período, defendendo a idéia de que o Estado de Bem-Estar deveria ceder lugar a um novo formato de Estado, o Estado mínimo.[6]


Sobre a ideia força motriz do desmantelamento do Estado de Bem-Estar para o Estado mínimo PARANHOS apud FRIGOTTO comenta que na verdade houve um movimento ideológico capitalista por traz dessas transformações:

A idéia-força batizadora do ideário neoliberal é a de que o setor público (o Estado) é responsável pela crise, pela ineficiência, pelo privilégio, e que o mercado e o privado são sinônimo de eficiência, qualidade e equidade. Desta idéia-chave advém a tese do ‘Estado mínimo’ e da necessidade de zerar todas as conquistas sociais, como o direito à estabilidade de emprego, o direito à saúde, educação, transportes públicos, etc. Tudo isso passa a ser regido pela férrea lógica das leis de mercado. Na realidade, a idéia de ‘Estado mínimo’ significa o Estado suficiente e necessário unicamente para os interesses da reprodução do capital (FRIGOTTO, 1999, p.83).[7] (grifo nosso).

Como é possível notar, as conquistas sociais, dentre elas o próprio direito à estabilidade do emprego, ideia central desta teoria, já foram segundo a história recente desarticulada socialmente, no sentido da defesa única dos interesses de reprodução do capital segundo FRIGOTTO, posição na qual concordamos, já que na Época de Ouro do capitalismo mundial, tanto o capital (detentores do capital) quanto o trabalho (detentores da mão de obra) fizeram um pacto político através do Estado produzindo em muitos países legislações trabalhistas e sociais amplas, dentre as quais se insere o Brasil, que durou por muito tempo e que ajudou ao crescimento da economia mundial de forma sustentável no fortalecimento recíproco do capital-trabalho onde o capital fornecia salários em troca da venda da mão-de-obra (capital humano) e os trabalhadores como consumidores devolviam o capital em forma de lucros através do mercado consumidor, numa espiral de prosperidade conjunta.
Portanto, no nosso entendimento, trabalhadores estáveis em seus postos de trabalho significam consumo estável também, trazendo estabilidade não só para os próprios trabalhadores, como também para todo o mercado consumidor e também para toda a Economia em geral.
Em seguida PARANHOS apud HOBSBAWN demonstra o maior radicalismo dos setores de direita na aplicação das práticas neoliberais:

A recomposição econômica do capitalismo se realiza pela radicalização das práticas neoliberais. Por volta de 1980, “governos da direita ideológica, comprometidos com uma forma extrema de egoísmo comercial e laissez-faire, chegaram ao poder” (HOBSBAWN, op.cit., p.245) com destaque para o governo Thatcher, eleito na Inglaterra em 1979, e para o governo Reagan, que chega à presidência dos Estados Unidos em 1980, em seguida os governos neoliberais se espalham por quase todos os países do norte europeu.[8]

Adiante, PARANHOS apud CARDOSO, demonstra a expansão capitalista após a Segunda Guerra Mundial:

Segundo Cardoso (2006), a expansão capitalista a partir da Segunda Guerra Mundial é impulsionada pelas necessidades norte-americanas de expandir seus mercados em direção às regiões menos desenvolvidas como os países da Ásia, África e América Latina. O New Deal, implantado pelo governo Truman na década de 1950, e a Aliança para o Progresso, assinada no ano de 1961, durante o governo de J.F. Kennedy, sinalizam a intervenção americana cujo objetivo declarado consistia na ajuda ao desenvolvimento além de combater a expansão do comunismo. Outros instrumentos transnacionais são construídos após a Segunda Guerra alegando ter como objetivo melhorar as condições de vida dos países subdesenvolvidos: o FMI, o BID, o Banco Mundial, a ONU, a OTAN, a UNESCO.[9]

Com os avanços tecnológicos da década de 1970 e a mundialização do capital, ocorre uma mudança das forças políticas entre o capital e o Estado e também a relação capital-trabalho:

A mundialização do capital reflete mudanças qualitativas nas relações de forças políticas entre o capital e o Estado e entre o capital e o trabalho. As tecnologias disponíveis na década de 1970 permitem que sejam implantadas técnicas de produção aplicadas nas fábricas japonesas a partir das quais se desenvolve o novo paradigma de organização e gestão da produção, a acumulação flexível. Diante da saturação e dos novos padrões de exigência do mercado, torna-se necessário  desenvolver métodos de produção bem diferentes daqueles que predominaram no paradigma fordista das grandes fábricas, tecnologia pesada e de base fixa, decomposição das tarefas e estabilidade empregatícia.

PARANHOS (et al) apud HUMPRHEY, SOUZA, SANTANA & DELUIZ, demonstra que o conceito de acumulação flexível de funções pelos trabalhadores e o novo paradigma do just in time foram se instalando na sociedade e ditando os rumos da “Administração de Recursos Humanos”:

As tecnologias e técnicas do final do século XX aliadas às melhorias dos transportes e das comunicações reduzem a importância da produção de massa e da existência de estoques. A acumulação flexível consiste exatamente na “produção da quantidade certa, com a qualidade certa, no exato momento em que ela é exigida” (HUMPHREY, 1995, p.114), como indicam noções do novo paradigma como just in time e qualidade total. A microeletrônica aliada à informática, a microbiologia e a engenharia genética revolucionaram as forças produtivas através de novos materiais, novos instrumentos e novas fontes de energia que permitiram a substituição da tecnologia rígida de base mecânica por uma tecnologia flexível, capaz de proporcionar a possibilidade de variar a produção de uma hora para outra, programando-a de acordo com a demanda. Desta forma, “a produção se daria baseada em trabalhadores flexíveis que, de posse de ferramentas flexíveis, teriam como resultado de seu trabalho um produto flexível” (SOUZA, SANTANA & DELUIZ, 1999, p.36).

Em seguida PARANHOS (et al) demonstra que a acumulação flexível, passa a ser uma exigência constante do novo modelo de produção ultrapassando o modelo taylorista-fordista, paradigma que também mostra uma adaptação dos processos de educação formais para satisfazer a essa nova realidade exigida dos trabalhadores ou “capital humano”:

A acumulação flexível promove mudanças não apenas em relação ao conteúdo, à forma e à organização do trabalho, mas também em relação a sua divisão, quantidade e à qualificação dos trabalhadores, introduzindo novas formas de subordinação do trabalho em relação ao capital. O trabalhador parcelar, desqualificado ou semiqualificado do paradigma taylorista-fordista é, supostamente, substituído pelo trabalhador polivalente altamente qualificado, responsável por diversos pontos do processo de produção, incorporando ao mesmo tempo tarefas de fabricação, manutenção, controle de qualidade e gestão da produção. As funções relativas à execução, concepção e controle são aproximadas transformando as concepções de educação e qualificação dos trabalhadores. A automação e a informatização das técnicas de produção engendram exigências as quais os processos de educação formal devem adaptar-se a fim de desenvolver nos indivíduos ‘competências’ compatíveis e adaptáveis de acordo com o contexto da organização produtiva flexível.

Na passagem seguinte é demonstrado que esse novo paradigma de produção utiliza como fator de disciplina o próprio medo de desemprego (instabilidade do posto de trabalho) e por um sistema de punições por metas não cumpridas, além da responsabilização individual do trabalhador em atrapalhar toda a equipe, assegurando à obediência as regras.
 Esse trecho da análise da administração atual é importante destacar em relação à teoria do capitalismo trabalhista, pois é usual no atual sistema o abuso da instabilidade nos postos de trabalho ocupados pelos trabalhadores ou “colaboradores” com objetivo de aumentar a produção de forma, a nosso ver, a afetar a dignidade da pessoa humana, responsabilizando e penalizando ainda mais o trabalhador como se isto fosse inerente ou um componente “natural” do sistema do qual o “recurso humano” no caso o trabalhador é que tem que se adaptar sob risco de ficar fora do mercado de trabalho diz PARANHOS (et al) apud HUMPRHEY:

A organização dos trabalhadores em equipes ou grupos de trabalho autônomos, bem como a inexistência ou a redução de estoques, proporcionam certa transparência dos processos que facilita verificar e expor rapidamente a fonte dos erros e problemas. A disciplina é mantida pelos próprios trabalhadores frente ao medo do desemprego e por um sistema de punições coletivo, o não cumprimento das metas estabelecidas prejudica o trabalho de outras pessoas ou outras equipes. Dessa forma, os trabalhadores transformam-se em clientes “internos”, controlando e monitorando o desempenho dos demais. Outro aspecto destacado por Humphrey é o de que para funcionar, a organização flexível requer o engajamento e o consentimento por parte dos trabalhadores: “o sistema requer conformismo e um direcionamento de todos os esforços no sentido do cumprimento das metas empresariais” (1995, p. 125). A promessa de promoção e de recompensas e um sistema de sanções, inclusive a possibilidade de demissão, regem o comportamento dos trabalhadores, assegurando a obediência às regras. (grifo nosso).

Posteriormente, PARANHOS apud MACHADO demonstra que os conceitos chaves das ideologias do individualismo e da meritocracia ajudam a fragmentar a luta social contribuindo para inibir qualquer forma de protesto social ou coletivo por parte da classe trabalhadora, além de contribuir para a desregulamentação de profissões ou ocupações, ideia que pode estar servindo de base também com a colaboração de grande parte das ciências econômicas e para a ciência da administração, que com esse ideal de fundo passam a exigir a flexibilização dos direitos trabalhistas em todo o mundo como se fosse algo natural escondendo o caráter ideológico deste movimento:

Machado (1989, p.25) demonstra que há uma regulação da cidadania a partir da hierarquização ocupacional no interior da produção, que chega a se constituir em norma legal pela regulamentação (ou desregulamentação) das profissões e das ocupações. A justificação para a desigualdade e para a hierarquização social constituída a partir da ideologia do individualismo remete à responsabilidade de tais processos imanentes ao processo de trabalho especificamente capitalista para o nível de cada indivíduo em particular. A fragmentação da luta social e o isolamento do trabalhador são personificados pelo processo de trabalho, coibindo qualquer forma de protesto individual ou coletivo. Subjetivamente, a livre concorrência e a ideologia do mérito regulam as relações sociais atuando sob as formas de agir e pensar dos trabalhadores. A visão meritocrática do mundo fundamenta o privilégio social e regula a posição e as condições sociais de cada indivíduo de acordo com seus êxitos individuais. A incapacidade de exibir capacidades valorizadas socialmente é suficiente para a condenação a uma vida de submissão perfeitamente justificável.

PARANHOS apud FRIGOTTO mostram que a destruição dos vínculos empregatícios, a informalidade dos contratos de trabalho, o desemprego estrutural crescente são frutos dessa ideologia articulada numa base sólida de interpretação da realidade na construção da identidade e modos de identificação de valores e na consciência moral dos indivíduos:

A ideologia capitalista se articula aos aspectos sociais, transformando-se numa base sólida para interpretação da realidade, incidindo sobre os processos de formação e construção de identidade, nos modos de identificação, nos valores e na consciência moral, nas características intelectuais, na percepção e nos sentidos atribuídos ao passado e ao futuro, nas práticas da vida cotidiana em geral, atuando como uma lógica de conformismo e subordinação, naturalizando o sofrimento humano, o individualismo e a desigualdade. Frigotto (1997) afirma que o mecanismo mais geral de subordinação dá-se mediante a exclusão social, materializada no desemprego estrutural crescente e no emprego precário. A flexibilização da produção também é seguida de perto pelo aumento da informalidade nos contratos de trabalho e pela destruição de quaisquer vínculos empregatícios. (GRIFO NOSSO).

O trecho a seguir é o ponto que gostaríamos de chegar ao que se refere aos paradigmas da ciência da administração em relação à teoria principal do capitalismo trabalhista que busca unir o ideal capitalista da propriedade com a luta histórica do trabalhismo mundial em busca da estabilidade. Atualmente a estabilidade no posto de trabalho, devido a essa ideologia que permeia vários ramos científicos (economia, administração em especial de “recursos humanos” entre outras ciências) que na verdade é carregado de valores ideológicos fortes, como o liberalismo, meritocracia, individualismo:

Os empregos vitalícios capazes de conferir segurança e estabilidade já não existem mais, a informalidade e a precariedade dos postos de trabalho simbolizam a liberdade de escolha extremamente irrestrita ao capital, que tem suas condições de permanência e reprodução cada vez mais independentes da classe trabalhadora, tornando-a – até certo ponto – dispensável. A dominação já não se apóia mais na vigilância constante dos trabalhadores e estabelece-se a partir da capacidade e do poder capitalista em determinar o futuro da sociedade, como as ideologias reproduzidas e repetidas constantemente fazem crer.

Portanto, é preciso muita investigação para conseguir enxergar em várias ciências as tentativas de validar cientificamente teorias que na verdade são formadas a partir de valores ideológicos (sejam de esquerda ou de direita). Na passagem seguinte PARANHOS (et al) demonstra que as conquistas sociais e trabalhistas são fruto da resistência dos movimentos sociais e que o direito a estabilidade estão dentro destas conquistas da classe trabalhadora:

No momento de recomposição econômica do capitalismo, as conquistas sociais e trabalhistas, fruto da luta e da resistência dos movimentos sociais, convertem-se em mecanismos de contenção social utilizados pelo próprio capital. A constituição de uma sociedade que integra os trabalhadores, como estratégia até de controlá-los, mas também como resultado das lutas dos trabalhadores organizados em sindicatos e partidos, implicou a desmercantilização da reprodução da força-de-trabalho e a constituição de uma esfera pública burguesa. Com efeito, mesmo com profundas desigualdades e níveis diversos entre as nações desenvolvidas e subdesenvolvidas, a educação, a saúde, o transporte, o lazer e cultura, a previdência social e o salário desemprego (em algumas poucas nações) passaram a se constituir em direitos sociais dos trabalhadores. Mediante as lutas dos próprios trabalhadores, o direito ao trabalho e à estabilidade no mesmo também foram se ampliando (FRIGOTTO, 1999).

Neste trecho seguinte PARANHOS (et al) defende que os EUA tentam a partir de uma aparência de ciência transmitir valores, como por exemplo a matematização da linguagem que pode-se observar por exemplo nas ciências econômicas que tentam isolar o trabalhador e o caráter de classe destas teorias sob uma pretensa neutralidade e racionalidade:

Sob o aparente rigor científico, a teoria econômica neoclássica - que remonta os princípios do liberalismo individual - busca estabelecer uma ‘fórmula’ para o desenvolvimento do capitalismo fundamentalmente nos países periféricos. Essas teorias, que têm à frente os Estados Unidos, apresentam-se como soluções milagrosas em todos os tipos de sociedade sem, no entanto, levar em consideração especificidades históricas, naturais, humanas e culturais. Não obstante, a matematização da linguagem, as estatísticas e a racionalidade empiricamente comprovada, como critérios de pretensa neutralidade e objetividade, servem para a esconder a circularidade e o caráter de classe destas teorias.

O próprio conceito de capital humano ou recursos humanos está inserido, portanto, neste contexto de tentativa de maior “objetividade” de algumas ciências em neutralizar valores contrários ao próprio interesse da classe dos detentores do capital, fazendo com que os trabalhadores ou colabores vejam a si próprios, numa construção de identidade coletiva como apenas “recursos humanos” individuais, dificultando portanto, qualquer tentativa de união da classe trabalhadora em torno de defesa dos seus interesses de classe, como se na verdade não existisse “classe trabalhadora” mas tão somente uma massa alienada de “recursos humanos”:

O conceito e capital humano – ou, mais extensivamente de recursos humanos – busca traduzir o montante de investimento que uma nação faz ou os indivíduos fazem, na expectativa de retornos adicionais futuros. Do ponto de vista macroeconômico, o investimento no “fator humano” passa a significar um dos determinantes básicos para o aumento da produtividade e elemento de superação do atraso econômico. Do ponto de vista microeconômico, constitui-se no fator explicativo das diferenças individuais de produtividade e de renda, e, conseqüentemente, de mobilidade social (Ibid., p. 41).

O conceito de capital humano, ou fator “H” contribui também para mudanças substanciais no setor educacional como mostra PARANHOS (et al):

Na década de 1960, os vínculos entre trabalho e educação são sistematicamente elaborados, afirmando a noção de capital humano como especificidade no campo educacional a partir do surgimento da disciplina Economia da Educação, nos Estados Unidos. Theodore W. Schultz é considerado o principal formulador dessa disciplina e da idéia de capital humano. Tomando o investimento em instrução como qualquer outro investimento em bens. O fator H (capital humano), introduzido da equação neoclássica, passará a explicar os diferenciais de desenvolvimento dos países e dos indivíduos, transformando o investimento em educação na chave para a ascensão social. Voltada para as práticas e concepções educacionais, a idéia de capital humano gerou uma visão tecnicista sobre o ensino e sobre a organização da educação, o que acabou por mistificar seus reais objetivos. Sob a predominância desta visão tecnicista, passou-se a disseminar a idéia de que ao educar-se, o indivíduo estaria “valorizando” a si próprio, na mesma lógica em que se valoriza o capital.

É interessante notar que essa ideologia do “capital humano” disseminou a ideia inclusive na área educacional (escolas, universidades, etc...) de que o trabalhador é o único responsável por seu próprio sucesso, incutindo a ideia de que a instabilidade no posto de trabalho e a precariedade das relações trabalhistas é um aspecto da “modernidade” sendo as formas de estabilidade no emprego coisas “ultrapassadas” de um passado distante, utópico, ilusórias, ideologicamente fracassadas ou até mesmo inviáveis de serem buscadas pelos trabalhadores, o que em nosso ver não corresponde à busca pela verdade e pela dignidade dos trabalhadores.
Ainda em relação à importância do ensino PARANHOS (et al) diz:

O capital humano, portanto, deslocou para o âmbito individual os problemas da inserção social, do emprego e do desempenho profissional e fez da educação um ‘valor econômico’, numa equação que iguala capital e trabalho como se fossem ambos igualmente meros ‘fatores de produção’. E cada indivíduo é produtor de suas próprias capacidades de trabalho adquiridas a partir do investimento em capital humano que ele mesmo ou o Estado devem empreender. Estes investimentos compreendem uma função de saúde, conhecimentos, treinamento, comportamentos, hábitos, disciplina, etc., aspectos que, segundo os pressupostos da teoria econômica neoclássica, potencializariam o trabalho e permitiriam a ampliação da produtividade. Nessa perspectiva, quanto maior o investimento econômico efetuado em educação, maior será a produtividade do trabalhador, que estará apto a ocupar melhores colocações na escala salarial.

PARANHOS (et al) apud ENGELS demonstra que o valor do individualismo ganhou grande parte da sociedade, incutindo a ideia de que o próprio trabalhador é responsável por investir em sua própria qualificação (mão de obra), ou seja, em seu próprio capital humano ou fator H para que ele próprio seja capaz de vender sua força de trabalho com mais êxito no mercado de trabalho, sendo a instabilidade algo inerente ao próprio sistema:

Ao analisar o processo de produção e suas determinações, os economistas e intelectuais burgueses, assim como os trabalhadores, ficam presos às mistificações capitalistas, limitando a investigação à aparência objetiva das determinações sociais. Ambas as classes percebem apenas as relações imediatas, o caráter fetichista da mercadoria afirma-se através das relações reificadas e obscurece as relações entre os homens. Assim como expressa Engels (2004), ao referir-se à economia política, a visão de mundo restringe-se às relações imediatas entre os fatos dados sem que a natureza dos fenômenos seja evidenciada. A motivação e compulsão puramente econômicas estabelecem-se como mediação da relação do homem com a natureza e com os outros homens.

Por fim, PARANHOS (et al) demonstra que o ensino acadêmico acaba sendo objeto de disputa de diversas ideologias, tentando validar algumas teses e anulando ou inviabilizando outras, no sentido de que a produção científica do meio acadêmico também atende a interesses de classes e não é isento de cargas ideológicas fortes:

A produção de conhecimento é fundada pela necessidade, e no interior das sociedades de classes servem ao propósito de uma classe. O saber converte-se em objeto de disputa. A percepção das relações reais é obscurecida pelo caráter enigmático atribuído aos produtos da atividade humana, que adquirem poder sobre seus criadores. Desta maneira, as abordagens assumem um caráter fragmentário, circular, pragmático e funcionalista que decorre da própria fragilidade da realidade concreta que alimenta e afirma as formas de pensar.

Essa constatação é importante, pois a própria ideologia do capitalismo trabalhista poderia também sofrer ataques ideológicos das forças contrárias à emancipação do trabalhador de simples coisa objeto de propriedade, como foi na escravidão, e do atual patamar ou status quo denominado “trabalhador livre”, mas, que atualmente é explorado e a instabilidade decorrente da falta de estabilidade do posto de trabalho é posto por outras teorias como algo que é quase um conceito pós-moderno e sagrado, como se jogar os trabalhadores uns contra os outros em verdadeiros torneios ou leilões de gladiadores por um posto de trabalho, configurando uma verdadeira anarquia do mercado de trabalho fosse algo indiscutível e “natural do sistema” em que vivemos sem chance alguma de mudança, ponto este, que obviamente discordamos completamente.



[1] PARANHOS, Michelle, NEVES, Bruno Miranda, SILVA, Simone. A desumanização do trabalho e do trabalhador. Trabalho Necessário. Ano 6. N 6. 2008. UERJ. Rio de Janeiro.
[2] Ibi Idem
[3] Ibi Idem
[4] Ibi Idem
[5]
[6]
[7] Ibi Idem
[8] Ibi Idem
[9] Ibi Idem

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