Em
grande parte do século XX houve como já dito uma intensa tentativa de se
instalar no mundo um sistema que fosse melhor e mais justo que o capitalismo.
KARL
MARX e FRIEDRICH ENGELS foram os mentores principais dessa tentativa ainda no
final do século XIX que ganhou o mundo encapada através da ideologia do
socialismo e comunismo.
Um
dos resultados positivos desse movimento foi a maior consciência por parte dos
trabalhadores que eram importantes para todo o sistema social que ocorreu em
todo o mundo além do próprio Brasil.
Ocorre
que na prática o sistema não funcionou como propunham seus idealizadores.
Ao
invés da exploração da classe burguesa foi a vez do Estado explorar os
trabalhadores.
Um
ponto de vista importante que se deve levar em consideração foi que KARL MARX,
pai do comunismo, e sem dúvida um dos mais importantes sociólogos de todos os
tempos (embora não pretendesse ser idealizado como tal), foi muito feliz em
identificar os problemas e características do capitalismo tais como a
mais-valia, a exploração capitalista, a desigualdade gerada pela propriedade
privada dos meios de produção entre outras, mas, deixou muito a desejar quando
passou a propor soluções para esses problemas.
Ocorre
que atualmente os mesmos problemas do capitalismo persistem e o comunismo
acabou por ser deixado de lado pela pobreza prática de gerar resultados
satisfatórios sendo adotados apenas por algumas poucas ditaduras tais como Cuba
e Coréia do Norte e outros países já citados anteriormente.
A
concentração dos meios de produção nas mãos do Estado ao invés de resolver o
problema o intensificou. Criou uma nova classe: a classe dos que pertenciam ao
Estado e o poder e o povo do outro lado sem poder algum e sem participar das
decisões.
Outra
falha muito importante do socialismo ao extinguir a propriedade privada, que só
foi observada a partir da experiência prática do socialismo, foi à ineficiência
em se controlar a economia devido à impossibilidade de se realizar cálculos
econômicos, como é possível perceber no artigo de LUDWIG VON MISES, um dos
críticos mais ferrenhos do socialismo:
No socialismo, todos
os meios de produção são propriedade da comunidade. É somente a
comunidade que pode manuseá-los, bem como determinar como se dará seu uso em
uma determinada produção. Desnecessário dizer que a comunidade só estará
apta a empregar esses poderes através da criação de um corpo especial para esta
finalidade. A estrutura deste corpo e a maneira como ele irá articular e
representar o desejo da comunidade é, para nós, de importância
secundária. Pode-se pressupor que esta última irá depender da escolha do
corpo de funcionários ou — nos casos em que o poder não estiver assentado em
uma ditadura — do voto majoritário dos membros da corporação.[1]
Outro
fato importante também se refere aos novos problemas mundiais que surgiram e a
maior consciência coletiva da população mundial neste sentido.
Entre
eles podemos citar a mecanização do trabalho, os problemas ambientais mundiais,
a grande desigualdade mundial entre os países, a escassez crescente dos
recursos naturais, a necessidade de limitação da liberdade dos países em prol
de uma comunidade internacional mais forte encabeçada por um órgão
multinacional como a ONU (Organização das Nações Unidas), para contrabalancear
os efeitos nocivos da globalização, sob o risco de um colapso futuro, seja por
guerras em busca de recursos naturais entre os países, desigualdade mundial de
forma exagerada e degradação humana em geral.
Temos
que levar em consideração também que o capitalismo não foi proposto por ninguém
especificamente, mas foi fruto de um processo lento e histórico, mas foi
reforçado pelo apoio dos Estados Unidos da América em contraposição ao sistema
do comunismo e socialismo que tentavam ganhar o mundo.
A
realidade é muito complexa e não pode ter soluções simples. Vemos que muitas
das “soluções” dadas por MARX são simplistas demais em face dos problemas que
propõem solucionar.
Ele
identificou, por exemplo, que é a luta de classes uma das responsáveis pelas
desigualdades devido à alienação do trabalhador e da grande parte dos
resultados da produção em prol da classe burguesa. Ocorre que sua solução foi
mais ou menos extinguir as classes sociais para que todos fossem mais ou menos
iguais.
Vimos
anteriormente na visão de LOCKE que a possibilidade de se guardar ou gastar a
moeda é que cria a desigualdade entre a propriedade das pessoas o que torna as
diferenças econômicas inevitáveis.
Se
uma pessoa, por exemplo, deseja guardar parte de seu salário e depois
investi-lo e outra prefere consumi-lo, temos a desigualdade natural do
patrimônio das pessoas.
Um
fato muito importante que foi deixado de lado na ideologia comunista: um pouco
de desigualdade provém justamente da liberdade das pessoas em decidir o que
fazer com seus bens e propriedades. Portanto um pouco de desigualdade provém da
parcela de liberdade presente na sociedade.
Na
questão das profissões ocorre o mesmo. Nem todas as profissões possuem a mesma
importância social. Dessa maneira é natural que algumas profissões sejam
melhores remuneradas que outras, pois, exigem mais especializações que outras.
Assim como cidades ou regiões mais ricas que outras e que resulta a diferentes
valores de remunerações entre elas. Obviamente quando a desigualdade chega a um
nível exagerado, como a que ocorre no Brasil, por exemplo, e em grande parte do
mundo e dos países em desenvolvimento ela passa a ser repugnante, mas, um pouco
de desigualdade é natural onde há liberdade.
Na
questão do Estado o mesmo também apresenta problemas assim como as religiões em
geral, a proposta de MARX neste outro sentido foi igualmente radical de que uma
vez alcançado o estágio do comunismo não seria mais necessário o Estado.
O
Estado por mais falho, e às vezes corrupto, como no caso brasileiro, tem a
necessidade de existir, pois, onde há sociedade há conflitos e sempre haverá a
necessidade de alguém dar a última palavra nos casos concretos. Se essa
“pessoa” (instância social ou estrutura social) que fosse dar a última palavra
não fosse do Estado provavelmente seria equiparada a tal sob o risco de termos
uma anarquia social. Há sempre os que abusam de seus direitos individuais e é
preciso uma instância social para que esses conflitos sejam solucionados.
O
mesmo ocorre com as religiões. Por mais que a ciência avance e conteste as
visões religiosas e místicas do mundo, o homem sempre vai possuir medos e
esperanças subjetivas que o levem a contestar a ciência e a realidade objetiva.
Portanto
é bem provável que grande parte da população mundial será religiosa de alguma
forma, embora, o número dos ateus e sem religião aumente a cada dia, e num
futuro distante as religiões podem realmente ter uma influência cada vez menor
na sociedade independentemente de se fazer um juízo de valor se isso seria
positivo ou negativo para a sociedade.
O
interessante não seria a luta pelo fim da religião, mas o respeito entre os
religiosos de diferentes denominações e também estes em relação aos sem
religião, fato este que já ocorre na prática no Brasil garantida pela
Constituição Federal de 1988.
As
experiências comunistas demonstraram na prática que a busca exagerada da
igualdade entre as pessoas foi tão prejudicial e sufocante quanto à
desigualdade atual do capitalismo.
Esse
fracasso da implantação de um sistema alternativo ao atual capitalismo levou a
uma quase unanimidade em favor do capitalismo e o fortaleceu ao invés de
sobrepujá-lo.
Mas
a crise pós-moderna é no sentido de que os mesmos defeitos do capitalismo
persistem e muitos acabam percebendo que manter o atual sistema indefinidamente
também não seja a posição mais certa e se ter.
É
possível haver sempre o paradoxo: quanto mais liberdade mais desigualdade e
quanto mais igualdade menos haverá liberdade nas relações sociais.
Portanto
caso se quisesse especular sobre um sistema novo o ideal é que deveria ser de
centro, nem de esquerda (muito a favor dos trabalhadores) nem de direita (muito
a favor do capital), mas a favor do equilíbrio. Os conceitos de direita,
esquerda e centro serão abordados de melhor maneira mais a frente.
A
luta entre o capital-trabalho, público-privado, liberdade-igualdade são
dualidades importantes assim como outras mais que sempre irão rondar a
humanidade e as relações sociais assim como os conflitos do direito.
Na
resolução dessas dualidades entendemos que não se resolve o problema de uma
extinguindo-se a outra polaridade.
Se
o capital, por exemplo, fica forte ao extremo o direito dos trabalhadores fica
sufocado. O inverso também é verdadeiro, se é dado excesso de direitos aos
trabalhadores o capital fica sufocado sem poder para criar riquezas.
Caso
se exclua todos os direitos dos trabalhadores corre-se o risco da volta da
exploração desmedida de épocas passadas.
Há
os que contestam essa visão e acreditam que não se pode regredir nessa área,
pois, na época da revolução industrial os salários eram baixos pela falta de
especialização dos trabalhadores e o seu número em excesso.
Mas
acreditamos que esse fator por si só não garante que se os trabalhadores forem
especializados e se seus direitos fossem suprimidos não há garantia nenhuma que
não se possa regredir.
Até
porque em épocas remotas não existia legislação trabalhista na maioria dos
países e vários abusos foram cometidos variando de país para país[2].
Portanto
o ideal não é suprimir nem o capital nem o trabalho, mas, fazer com que
trabalhem em harmonia até porque o trabalho possui uma função importante assim
como aquele que se dispõe a correr riscos “apostando” seu dinheiro (capital).
O
lado ruim do comunismo ou do socialismo científico foi à radicalização das
relações entre o capital e o trabalho. Devido ao fracasso prático do comunismo
na maioria dos países que tentaram implementá-lo[3]
várias pessoas que são a favor de condições melhores de vida para os
trabalhadores na atualidade são consideradas “comunistas” tendo essa conotação
um lado pejorativo assim como de “esquerda” como sendo uma pessoa retrógrada,
atrasada, iludida ou utópica (ou todos eles juntos).
Esse
monopólio das possíveis visões de futuro que convergem todas para o capitalismo
e a crise pós-moderna é muito bem identificado por BOAVENTURA DE SOUZA SANTOS, na
obra “A crítica da razão indolente: Contra o desperdício da experiência” embora
seja importante ressaltar que o mesmo tenha apenas identificado com maestria a
crise atual de paradigma sócio-cultural reservando o direito de não ir muito
além:
[...] Tal como a modernidade se
transformou num paradigma sócio cultural antes do triunfo do capitalismo,
imagino estar a surgir um novo paradigma epistemológico e sócio-cultural,
embora não se descortine, por enquanto, qualquer transição para lá do
capitalismo. Com a progressiva transformação da ciência moderna em
conhecimento-regulação, a modernidade ocidental desistiu de propor uma idéia de
progresso sem capitalismo. Abandonado a si próprio, o capitalismo, enquanto
modo hegemónico de produção, não admite qualquer outra transição a não ser
aquela que conduz a mais capitalismo.[4]
Uma
grande parte da sociedade mundial está chegando à conclusão de que não se deve
ser radical, nem muito a esquerda nem muito a direita do espectro político,
pois, ambos os radicalismos levaram a resultados ruins como a extrema
desigualdade do liberalismo, quanto ao coletivismo sufocante do comunismo.
É
possível observar que as novas gerações atuais possuem uma maior aceitação das
diferenças, e uma posição mais centrista em relação a vários assuntos da
sociedade em geral.
A
falta de radicalismo dos jovens demonstra que há certa maturidade social em não
adotar posições radicais, exceto em algumas áreas como a religiosa onde a
convivência pacífica entre as diferentes religiões está ficando cada vez mais
difícil de conquistar no mundo, mas é uma realidade no Brasil.
Uns
entendem que isso é uma falta de interesse dos jovens por assuntos ideológicos
e importantes para a sociedade, mas podemos identificar também por outro lado,
que essa falta de posição radical é em si uma posição, uma posição de centro, a
favor do equilíbrio. Desta maneira o capitalismo trabalhista como ideologia não
seria antes de tudo algo proposto sem fundamentos sociais, de cima para baixo,
mas antes de tudo, uma identificação de uma tendência atual da sociedade
moderna sem a radicalização do passado seja para um lado ou outro do espectro
político.
Em
consonância com esta tendência é proposto no próximo capítulo uma ideologia
baseada em uma mescla de institutos jurídicos, sociais, políticos e ideológicos
para o Brasil e um modelo que atendesse aos anseios do nosso país ao invés de
apenas estudar as ideologias externas, respeitando o passado político
brasileiro e da forte corrente trabalhista do país.
Entendemos que o cientista social deve tomar
uma posição e a demonstrar claramente embora muitos sejam contra da junção
entre sociologia e a ciência política ou o ativismo político, entendemos que o
sujeito e o objeto nunca estão totalmente separados de uma forma totalmente
isenta principalmente nas ciências sociais.
SANTOS
demonstra essa dificuldade pós-moderna da sociologia de propor ou não saídas
possíveis e qual as atitudes possíveis que um cientista social pode ter:
[...] a sociologia convencional, tanto na sua vertente
positivista como na vertente antipositivista, conseguiu fazer passar, como
remédio para a crise da sociologia, a crítica da sociologia crítica, uma
crítica assente, no caso da sociologia positivista, na idéia de que o rigor
metodológico e a utilidade social da sociologia pressupõe que ela se concentre
na análise do que existe e não nas alternativas ao que existe e, no caso da
sociologia antipositivista, na idéia de que o cientista social não pode impor
as suas preferências normativas por carecer de um ponto de vista privilegiado
para o fazer.
Em resultado disto, a pergunta que sempre serviu de ponto de
partida para a teoria crítica – de que lado estamos? – tornou-se para alguns
pergunta ilegítima, para outros uma pergunta irrelevante e para outros ainda
uma pergunta irrespondível. Se alguns, por acharem que não tem de tomar
partido, deixaram de se preocupar com a pergunta e criticam quem com ela se
preocupa, outros, talvez a geração mais jovens de cientistas sociais, embora
gostassem de responder à pergunta e tomar partido, vêem, por vezes com
angústia, a dificuldade, aparentemente cada vez maior, de identificar posições
alternativas em relação às quais haveria de tomar partido.[5]
Portanto
tendo consciência dessa dificuldade, entendemos que a ciência social e em
especial a sociologia do direito tem um papel fundamental na criação de novas
alternativas e não repousar somente na análise dos fatos sociais já existentes.
Entendemos
que toda ideologia pode ser ou não aceita pela sociedade dependendo dos
argumentos em que se baseiam e dos valores subjetivos de cada pessoa entre eles
os valores e princípios de cada um.
Nas
ciências sociais há esse embate muito grande entre os que poderíamos chamar de
conservadores, que resistem as mudanças de paradigma dentre aqueles poucos que
se aventuram a buscar novas soluções, sendo estes últimos mais raros dados as
dificuldades naturais que o novo pode gerar na maioria das pessoas, mas não em
todas.
Diante
do novo e do inusitado as reações podem ser variadas dadas a segurança natural
das coisas, ideias ou objetos científicos já conhecidos.
O
novo gera algumas vezes medo ou receio nas pessoas, pois, a maioria delas prefere
obviamente continuar com o que estão acostumadas com o status quo dominante, daí a dificuldade da evolução da sociedade
seja para qual for o lado que se especula. E agora ainda mais dado o fracasso e
a queda do comunismo no campo político e ideológico nos últimos 30 anos, essa
desconfiança em se substituir o capitalismo por outra solução tende a ser
maior, mas não de todo impossível de superar.
Estudar
o passado por mais que seja uma preciosa ferramenta para podermos projetar e
até mesmo especular sobre o futuro é importante, mas, não garante por si só os
avanços (ou retrocessos dependendo do caso).
Sem
as inovações sociais do que seria a humanidade?
O
que seria da abolição da escravidão se todos ficassem apenas olhando o
“confortável”, mas, não mais justo passado?
Até
porque também se estudarmos a história vemos que a sociedade como um todo
evolui e não continua estática para todo o sempre.
Portanto para armar os inovadores a favor de
sua retórica há o peso do próprio passado que se mostra vibrante, mutável e
sujeito a evoluções e regressões diversas. Podemos ter a certeza de que não
sabemos ao certo para o que irá mudar o capitalismo, mas, se formos analisar o
passado é certo que um dia mudará para algo ou apenas se transformará de algum
jeito.
Assim
como a abolição da escravidão em sua época trouxe o medo do que nos poderia
reservar o futuro que de certa forma nunca tinha existido até então, entendemos
que diante das dificuldades devemos analisar o presente e quando necessário propuser
soluções, pois, a ciência não pode ser uma mera enciclopédia revisionista, mas
antes de tudo, tem a missão primordial e não menos difícil de propor soluções
melhores para o futuro.
Respeitamos
a visão dos conservadores, que não são poucos nas ciências sociais,
especialmente em sociologia e no direito, em que o mais provável e confortável
é a continuidade do presente.
Entendendo
todas essas dificuldades e com muito respeito e humildade as visões contrárias
e contra todas as probabilidades desfavoráveis entre elas a grande a favor da
continuidade do status quo atual,
propomos o que na nossa visão não será a solução de todos os problemas, e está
longe de ser uma ideologia perfeita, mas é uma singela tentativa de se buscar
um sistema político-econômico mais seguro e viável para enfrentar os desafios
do século XXI e seguintes tendo em mente que manter tudo como está ou não
depende também da própria sociedade em buscar melhores alternativas ou
permanecer imersa no “conforto” de um presente consumista, irresponsável e que
relega os valores humanos a um segundo plano elevando as coisas materiais acima
dos valores da dignidade humana.
[1] MISES,
Ludwig Von. O cálculo econômico sob o socialismo. Instituto Ludwig Von Mises
Brasil. 29 Out 2011. Disponível em: < http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1141>
Acesso em 13 fev 2013.
[2] Há
vários fatores que influenciam os salários e o nível de vida dos trabalhadores
dos países tanto os costumes, a cultura de cada país, a existência de leis
trabalhistas ou não entre outros fatores.
[3] Na
literatura muitos divergem sobre o grau de implementação do comunismo, alguns
defendem que o comunismo verdadeiro (científico) não foi implementado da forma
correta em nenhum país do mundo.
[4] SANTOS,
Boaventura de Souza, A crítica da razão indolente. Contra o desperdício da
experiência, 2 Ed. São Paulo: Cortez ano 2000. pág 117
[5] Ibidem pág
27.
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