segunda-feira, 29 de julho de 2013

11.4. Diretriz 1ª do Capitalismo Trabalhista: “Globalização trabalhista”


Globalização dos direitos trabalhistas atrelados ao comércio internacional.

“Todo trabalhador mundial deveria ter um mínimo de direitos que são irrenunciáveis e deveriam estar protegidos pelo Estado e pelo direito do trabalho internacional através da O.I.T. (Organização Internacional do Trabalho) e OMC (Organização Mundial do Comércio) e pelo direito do trabalho interno dos países onde a concorrência empresarial não poderia suprimir de forma alguma sob o risco de se cometer abusos que ferem os direitos humanos dos trabalhadores.”

No mundo atual vemos um maior abuso do capital sobre os valores do trabalho, o longe de ser o ideal para os trabalhadores.
Com a queda do Muro de Berlim em 9 de novembro de 1989 após 28 de existência e da fuga de vários refugiados para a Alemanha Ocidental, e a queda do comunismo no Leste Europeu, praticamente toda a esquerda mundial caiu em certo descrédito e perdeu sua força ideológica e política seja nos movimentos do comunismo, socialismo ou atualmente após as crises americanas e a européia[1] da social-democracia que faz parte da terceira via proposta por GIDDENS e transformou-se também ao nosso ver de forma injusta em mais um modelo em crise.
Dos anos 90 aos dias atuais, como resultado dessa hegemonia do neoliberalismo, globalização e capitalismo, houve certa radicalização das doutrinas de direita e toda luta em direção ao reforço dos direitos dos trabalhadores foram associadas ao passado e a ideologias velhas e ultrapassadas.
Com a ascensão da China a segunda maior economia do mundo e ao mesmo tempo com vários abusos cometidos contra os trabalhadores chineses o mundo atual vive um dilema crucial.
O setor empresarial de vários países, ao se virem obrigados a competir com os produtos chineses devido a globalização, apoiam a flexibilização trabalhista[2] para que possam competir de igual para igual com os chineses.
Sobre a flexibilização trabalhista MARCELO DIAS AGUIAR, em artigo intitulado “Flexibilização das Leis trabalhistas”, cita a definição de SÉRGIO PINTO MARTINS:

"a flexibilização do direito do trabalho vem a ser um conjunto de regras que tem por objetivo instituir mecanismos tendentes a compatibilizar mudanças de ordem econômica, tecnológica ou social existentes na relação entre o capital e o trabalho."[3]

Embora muitos defendam a tese da flexibilização como uma forma de modernização da legislação trabalhista outros a veem como uma tentativa de burlar os direitos básicos dos trabalhadores e de inviabilizá-los na prática.
Desta maneira seria necessário que um rol mínimo de direitos trabalhistas fosse respeitado em todo o mundo e atacasse a dimensão do espaço mundial proposto por SANTOS.
Um exemplo semelhante que temos em mente foi à pressão do Reino Unido/Inglaterra que era então uma das maiores potências mundiais (continua sendo, mas não em seu auge) no ativismo político deste país na abolição da escravidão no Brasil, por exemplo, como informa em um artigo DANIEL DO VAL COSENTINO[4]:

Grande parte da historiografia sobre a abolição do tráfico de escravos aponta a questão da pressão britânica como seu principal motivo. Robert Conrad a coloca como primeiro golpe sério contra a escravatura. Segundo ele, esta ―primeira medida, contudo não foi tomada pelos abolicionistas brasileiros, tendo sido principalmente, o resultado de pressão estrangeiras. (Robert Conrad, 1975:30). Cuba e Brasil foram os últimos países a extinguirem o tráfico de escravos africanos. Desde a vinda da família real portuguesa para o Brasil, a Inglaterra vinha pressionando contra o comércio de escravos. Com a Independência, os ingleses vislumbraram novamente a possibilidade de obter a abolição do tráfico. O interesse apresentou-se como exigência ética contra a escravidão. Além disso, as idéias que vinham desde Locke a Adam Smith, a crença de que a escravidão violava o principio da liberdade individual e, por isso, deveria ser extinta, a defesa do livre comércio, do  laissez-faire  e a crença no trabalho como alicerce da sociedade moderna também justificavam os interesses da potência inglesa.

A ideia, portanto como base de preceito ou diretriz seria atrelar um rol mínimo de direitos trabalhistas mundiais que poderia ser feito pela OIT a serem atrelados a questões comerciais na atual OMC que atuaria para impor pressões para que os acordos trabalhistas fossem cumpridos dentro de um rol comercial maior entre os países.
Pois se um país abusa dos direitos dos trabalhadores como no caso da China, que em casos recentes inclusive mais de 10 trabalhadores cometeram suicídios por possível excesso de trabalho na empresa Foxconn[5] que fabrica componentes eletrônicos para empresas importantes atuais do ocidente.
Essa diretriz seria importante na elaboração de um sistema político-econômico mundial mais equilibrado e justo, como o proposto por este trabalho o capitalismo trabalhista, pois, tanto valorizaria o capital quanto o trabalho a nível mundial.
Para isso, organizações como a ONU, OIT e OMC (Organização Mundial do Comércio) deveriam ter o poder de aplicar sanções aos países que desrespeitassem um rol mínimo de direitos.
Como a globalização ganhou atualmente o campo político e saiu apenas das esferas acadêmicas, os países em várias situações estão se unindo nos tempos de crises, como a americana de 2008 e a européia de 2010, porque com o grau de globalização avançado atual, as decisões precisam ser globais também para fazer frente a essa nova necessidade de ação conjunta.
Devido a isso, a união dos trabalhadores de todo o mundo é necessária, porque, se em alguns países, o capital extrapola o seu direito de exploração justa do trabalhador e passa a suprimir seus direitos básicos, essas empresas ou países deveriam sofrer sanções internacionais quanto a esse fato chamado por alguns de “dumping social”.
Para esse sistema funcionar o ideal seria ser aplicado na maior parte do mundo, pois, se alguns países ficarem abaixo do padrão, devido a competição acirrada atual, e da globalização, ocorre um intenso fluxo de investimentos a esses países em busca de cortes de gastos das corporações.
Entendemos que o capitalismo trabalhista seria um sistema mais justo e humano na relação capital-trabalho e essa é uma diretriz importante caso a humanidade busque uma solução que não seja radical e ineficaz (como no caso do comunismo e socialismo) e seja mais equilibrada e eficiente ao mesmo tempo na produção e distribuição de riquezas frutos da interação sadia entre o capital e o trabalho.
Não se pode olhar a globalização como um fato apenas prejudicial.
Nada impede, por exemplo, que coisas positivas sejam também globalizadas como os direitos dos trabalhadores que foram uma garantia histórica de várias lutas e perda de vidas, e não se pode deixar que todo esse movimento se perca sob o risco de se repetir os abusos e erros do passado que mancharam e envergonharam a história da humanidade como a própria escravidão e a transição do trabalho escravo para o trabalho “livre” atual.
Por mais que o capital tente colocar as conquistas dos trabalhadores no rol das ideologias fracassadas em todas as crises econômicas que surgem, a maior parte das pessoas de bom senso entende que um mínimo é necessário e que a dignidade da pessoa humana nunca poderá ser deixada de lado independentemente do ciclo econômico ser favorável ou não.
Cortar gastos suprimindo direitos básicos dos trabalhadores mundiais embora seja um fato real nos dias atuais, se for levado adiante é bem provável que será caracterizado como um atraso social muito grave para toda a sociedade mundial e um grande retrocesso.
Embora o Estado-Providência tenha entrado em crise, e o liberalismo é proposto por muitos como a única saída para um mundo melhor, entendemos que há alternativas de futuro diferentes e possíveis.
 Por isso essa diretriz é fundamental não só para o capitalismo trabalhista, mas, para qualquer sistema que buscasse mais justiça e equilíbrio nas relações capitalistas e trabalhistas que são obviamente uma das mais importantes relações sociais existentes.
Um dos motivos do atual capitalismo não ser aceito como uma política de classe ou ideologia dominante reside no fato apontando com muita maestria por BOAVENTURA DE SOUZA SANTOS:

Mas as práticas e políticas de classe foram também afectadas por modificações significativas nas estruturas de classes. A segmentação nacional e transnacional dos mercados de trabalho, a crescente diferenciação interna da classe operária industrial, o aumento do desemprego e do subemprego, qualquer deles estrutural, a expansão do sector informal no centro, na periferia e na semiperiferia, o extraordinário aumento dos serviços, tanto dos qualificados como dos não qualificados, a difusão da ideologia cultural do consumismo, mesmo em classes e países onde essa ideologia dificilmente pode ser traduzida numa prática de consumo, o conjunto de todos estes factores contribuiu para descaracterizar as práticas de classe ou para impedir que se transformassem eficazmente em política de classe. Foi assim que os partidos operários tradicionais acabaram por suavizar o conteúdo ideológico dos seus programas e se transformaram em partidos transclassistas (catchall parties). Entretanto, as transformações políticas radicais da Europa do Leste e o desmoronamento da União Soviética contribuíram para “naturalizar” o capitalismo e a exploração capitalista, agora nas suas versões mais liberais, em detrimento das versões social-democráticas.[...]

Embora atualmente muitos cheguem a cogitar que a social-democracia esteja em crise, a proposta da terceira via de GIDDENS, nos parece que essa afirmação é injusta.
Todas as vezes que há uma crise capitalista muitos apontam como uma das soluções um liberalismo ainda maior.
Entendemos que essa tese é falsa já que, quanto mais fracos ficam os trabalhadores e se seus salários diminuem, isso afeta diretamente o consumo de toda a sociedade.
Portanto, também não é interessante para o lado do capital extinguir por completo os direitos mínimos dos trabalhadores, pois, para a exploração se manter num nível possível sem rebeliões, revoluções e greves é do próprio interesse do capital que haja regras mínimas para que o próprio sistema não entre em colapso atrapalhando o bom andamento do mesmo.  



[1] Que se iniciou na Grécia referente aos países chamados PIGS – Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha países com alto endividamento em relação ao Produto Interno Bruto e altos déficits.
[2] Termo que as vezes é vago e na doutrina há uma certa divergência sobre o que significaria realmente.
[4] COSENTINO, Daniel do Val. A TRANSIÇÃO DO TRABALHO ESCRAVO PARA O TRABALHO LIVRE E AS RAÍZES DAS DESIGUALDADES
SOCIAIS NO BRASIL DANIEL. Disponível em: http://www.economia.unam.mx/cladhe/registro/ponencias/448_abstract.pdf Acesso em 01 de fev. de 2012.

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