[...]
Dentre a avalanche de argumentos utilizados para desqualificar a permanência da
díade, Bobbio expõe primeiro os secundários: crise das ideologias; a
complexidade das sociedades democráticas; o surgimento de movimentos e
problemas que não se enquadram no esquema tradicional (Direita - Esquerda).
Bobbio responde à primeira objeção da seguinte forma: “(...) não há nada mais
ideológico do que a afirmação de que as ideologias estão em crise. E depois, esquerda e direita não indicam apenas ideologias” (BOBBIO, 2001,
p.51). Os dois termos são encarados como programas contrapostos de idéias,
interesses e de valorações a respeito da direção a ser seguida pela sociedade.
Quanto à opinião da complexidade da sociedade tornar inadequada a existência de
apenas duas partes contrapostas no universo político, o autor diz que a
distinção direita e esquerda não exclui posições intermediárias. Prova disso é
o “centro” ou também denominado de Terceiro Incluído; há ainda o Terceiro
Inclusivo. O Terceiro Incluído busca um espaço entre dois opostos; não é nem de
direita nem de esquerda, mas está entre uma e outra. O Terceiro Inclusivo tende
a ir além dos dois opostos e a englobá-los numa síntese superior. Segundo
Bobbio, o Terceiro Inclusivo apresenta-se normalmente como uma tentativa de Terceira
Via no debate político; uma doutrina em busca de uma práxis. Podemos enquadrar
a proposta de Giddens nessa categoria de Terceiro Inclusivo, pois o sociólogo
inglês propõe na obra Para Além da Esquerda e da Direita uma “política radical reconstituída, que
recorra ao conservadorismo filosófico mas que preserve alguns dos valores
centrais que até agora estiveram associados ao pensamento socialista”.
Portanto, a pretensão de Giddens é elaborar uma síntese dos opostos. A terceira
razão posta para rejeitar a díade se apóia no surgimento de um Terceiro
Transversal, mostrando o caso dos Verdes como um movimento que atravessa os
dois campos. Os Verdes, diz Bobbio, não tornam anacrônica a velha díade, mas
sim tendem a se redividir em novas versões dos dois pólos.[1]
[...] 4. O PV não se aprisiona na estreita polarização
esquerda versus direita. Situa-se à frente. Está aberto ao diálogo como todas
as demais forças políticas com o objetivo de levar à prática as propostas e
programas verdes. O PV identifica-se com o ideário de esquerda no compromisso
com as aspirações da grande maioria trabalhadora da população e na
solidariedade com todos os setores excluídos, oprimidos e discriminados.
Defende a redistribuição da renda, a justiça social, o papel regulador e
protetor do poder público em relação aos desfavorecidos e os interesses da
maioria dos cidadãos, não só diante do poder econômico, como dos privilégios
corporativistas. Mas não segue os cânones da esquerda tradicional, da mesma
forma com que questiona a hegemonia neoliberal, duas vertentes do paradigma
produtivista do século XIX. Os verdes buscam na ecologia política novos
caminhos para os problemas do planeta. [...][2]
[...] O cerne da obra consiste na defesa da legitimidade do par
esquerda e direita. Tal intuito passa pela exposição de um critério que
diferencie as partes e o escolhido por Bobbio é a atitude diante da igualdade.
Fala o autor: “(...) de um lado estão aqueles que consideram que os homens são
mais iguais que desiguais, de outro os que consideram que são mais desiguais
que iguais” (BOBBIO, 2001, p. 121). Esse
contraste é complementado por outro: a esquerda acredita que a maior parte das
desigualdades é social e, enquanto tal, eliminável; a direita acha que a maior
parte delas é natural e portanto ineliminável. É válido ressaltar o
caráter relativo do conceito de igualdade, sendo submetido a três variáveis:
igualdade entre quem, em relação a que e com base em quais critérios. Uma
enorme variedade de tipos de repartições igualitárias pode ser obtida com a
combinação destas três variáveis. Bobbio aproveita o tópico para diferenciar a
doutrina igualitária do igualitarismo. Para ser de esquerda não é preciso
proclamar o princípio da “igualdade de todos em tudo”. Em outras palavras,
afirmar que a esquerda é igualitária não quer dizer que ela também é
igualitarista. Um movimento inspirado pela doutrina igualitária tende a reduzir
as desigualdades sociais e a tornar menos penosas as desigualdades naturais. O
igualitarismo defende a idéia de que todos os homens devem ser iguais em tudo,
independentemente de qualquer critério discriminador. Bobbio considera o
igualitarismo uma visão utópica. (Grifo nosso).
[1] http://www.urutagua.uem.br/010/10silva_pedro.htm
< acesso em 31.05.10 > Direita e Esquerda: contribuições de Bobbio e
Guiddens para o debate político. Pedro Gustavo de Souza Silva. Revista Urutaguá
10 ago/set/out/nov. revista acadêmica multidisciplinar – Departamento Ciências
Sociais – Universidade Estadual de Maringá – ISSN 1519.6178
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