O
capitalismo trabalhista como ideologia, proposto por este livro, teria alguns
aspectos internacionais a serem implementados para que a doutrina tivesse êxito
em nossa opinião.
Para
isso é preciso entender alguns aspectos da teoria das Relações Internacionais,
antes de propor diretrizes que possam atacar vários espaços sociais, entre eles
o espaço global ou internacional.
JÕAO
PONTES NOGUEIRA E NIZAR MESSARI, em relação à introdução ao livro TEORIA DAS
RELAÇÕES INTERNACIONAIS dizem:
Hoje
em dia, ouvimos dizer com frequência que o mundo está cada vez mais
internacionalizado, integrado e globalizado. Mas o que se quer dizer,
exatamente, com isso? Será que nossas vidas quotidianas, o andar da nossa
economia, os altos e baixos da política ou a maneira como se enfrentam os
problemas sociais são, realmente, afetados por acontecimentos que ocorrem longe
daqui e por decisões tomadas por outros governos? Acreditamos que sim, e que o
estudo das relações internacionais é fundamental para compreendermos o mundo em
que vivemos.[1]
Desta
maneira abordaremos as principais correntes de Relações Internacionais para
adequar a teoria do capitalismo trabalhista e analisar em que correntes ela
teria mais afinidade acadêmica.
11.2 A EVOLUÇÃO DA DISCIPLINA
Segundo
NOGUEIRA & MESSARI o início da disciplina de Relações Internacionais se deu
da seguinte maneira:
A
apresentação convencional da origem e da evolução da disciplina de Relações
Internacionais situa os primeiros passos para a formação da disciplina no
período imediatamente posterior à tragédia da Primeira Guerra Mundial e nos
rastros de destruição que ela havia deixado. O primeiro departamento de
Relações Internacionais foi criado em 1917, na universidade escocesa de
Aberystwyth, com uma preocupação normativa: os acadêmicos que se reuniram
naquele departamento tinham como objetivo organizar uma disciplina em torno do
estudo da questão da guerra e, mais precisamente, com a finalidade de livrar a
humanidade de suas consequências nefastas. Era preciso, então, estudar o
fenômeno da guerra e suas causas para poder evitar a repetição de tragédias
similares às acontecidas na então chamada Grande Guerra.[2]
Em
seguida houve a primeira cisão entre os teóricos de RI (Relações
Internacionais):
Edward
Hallett Carr, um diplomata britânico aposentado, escreveu um livro ao qual deu
o título de Vinte anos de crise, publicado
em 1939, poucos meses antes do início da Segunda Guerra Mundial. No livro,
afirmou que a preocupação normativa dos primeiros acadêmicos da área de
Relações Internacionais acabou por cegá-los. Segundo Carr, foi tal preocupação
que obrigou esses primeiros acadêmicos da área de Relações Internacionais que
obrigou esses primeiros acadêmicos a pensarem em termos do dever ser do mundo, em vez de estudar como o mundo realmente funcionava.[3]
NOGUEIRA
& MESSARI continuam a mostrar que o debate começou a repartir os realistas,
que defendiam como o mundo realmente funcionava dos idealistas ou utópicos que
defendiam como o mundo deveria ser:
A
concepção desses primeiros acadêmicos, a quem Carr chamou de utópicos ou
idealistas, em problemas ético-morais, impediu-os de elaborar instrumentos
analíticos que permitissem perceber os sinais anunciadores da proximidade da
Segunda Guerra Mundial. Ao contrário desses idealistas, Carr definiu um segundo
grupo que chamou de realistas, que
estudava como o mundo realmente era e que defendia uma visão menos utópica e
mais sintonizada com as dimensões do poder e do interesse que permeiam a
política internacional. A caracterização feita por Carr desse debate como um confronto
entre idealistas e realistas ficou conhecida na área acadêmica de Relações
Internacionais como o primeiro grande
debate da teoria das Relações Internacionais. [4]
É
interessante este debate, que surgiu na teoria das Relações Internacionais,
pois interessa a ideologia defendida neste Livro saber em que parte do debate
poderia se inserir a ideologia do capitalismo trabalhista. Em seguida NOGUEIRA
& MESSARI continuam:
Era
um debate ontológico sobre uma disciplina recém-criada, em que as partes eram o
dever ser dos idealistas e o ser dos realistas. O primeiro grupo queria estudar como mudar o
mundo para torna-lo mais pacífico, enquanto o segundo grupo queria estudar os
meios à disposição dos Estados para que pudessem garantir sua sobrevivência.[5]
Acreditamos
que a ciência como um todo tem um duplo papel, que é em primeiro lugar analisar
o mundo como ele realmente é; e em
segundo lugar criticar o mundo como ele é propondo soluções alternativas viáveis e um terceiro objetivo criar uma
ponte entre esses dois mundos (real e
o ideal).
Por
exemplo, na época da escravidão se adotássemos a linha dos realistas chegaríamos à conclusão absurda de que os negros deveriam
ser e continuarem escravos por serem consideradas uma raça inferior, tudo isto
com bases jurídicas, ou seja, leis amparando a escravidão de negros na
sociedade, tais como a propriedade privada de escravos, e bases científicas, já
que existiam estudos científicos certificando que os negros eram inferiores
tais como a corrente do determinismo biológico que inclusive serviu de base
posteriormente para a ideologia nazista.
O
exemplo da escravidão é um exemplo de que a corrente realista na verdade atua como um legitimador da atual estrutura de
poder vigente em uma determinada sociedade doméstica ou internacional em um
determinado tempo histórico.
Se
ficarmos apenas atrelados ao “mundo como ele é”, podemos nos sentir mais
“seguros”, mas como a história demonstra nem sempre o “mundo real” é o mundo
mais justo e o mais aperfeiçoado possível.
Em
relação ao desenvolvimento dos debates NOGUEIRA & MESSARI dizem:
Com
a chamada revolução behaviorista nas ciências sociais em geral, a crítica que
passou a ser feita à área de Relações Internacionais deixou de ser ontológica e
tornou-se metodológica. O segundo grande
debate na área não foi mais um debate sobre o que estudar, mas como
estuda-lo. Os realistas científicos defendiam maior rigor científico e maior
influência dos métodos das ciências exatas. Criticavam, também, a falta de
diálogo com outras áreas do conhecimento científico, nas quais avanços
expressivos na formulação de métodos empíricos de observação e análise da
realidade objetiva haviam sido feitos.[6]
Sobre
o desenvolvimento dos debates de RI no final da década de 1960 e no decorrer da
década de 1970, NOGUEIRA & MESSARI comentam:
Na
área acadêmica, o surgimento de novos atores não-estatais na política
internacional, como empresas multinacionais e organizações internacionais
governamentais e não-governamentais, levou ao questionamento de premissas
básicas do realismo. Assim, surgiram críticas à separação entre política
doméstica e política internacional, bem como à divisão entre high e low
politics (alta política, relativa à segurança; e baixa política, referente a
temas econômicos, tecnologógicos etc.), e à primazia da primeira em relação à
segunda [...] Começou a se falar da exagerada ênfase dos realistas na questão
da guerra em detrimento de outras questões de política internacional, e
surgiram críticas ao excesso de ênfase no conflito em detrimento da cooperação
e da interdependência.[7]
NOGUEIRA &
MESSARI demonstram que MICHEL BANKS apontou o surgimento do debate dividido em
três paradigmas: o realismo, o liberalismo, e a herança Marxista[8].
Desta maneira
iremos concentrar a análise destas três correntes no que interessa a ideologia
do capitalismo trabalhista.
11.3 REALISMO E PREMISSAS BÁSICAS
NOGUEIRA
& MESSARI ao comentarem sobre as premissas comuns do pensamento realista
aplicável as Relações Internacionais concluem:
A
grande diversidade e a ampla riqueza do realismo tornam a tarefa de definir
premissas comuns a todas as vertentes do pensamento realista uma tarefa árdua.
Contudo, das tradições herdades de Tucídides, Maquiavel e Hobbes, algumas
premissas podem ser consideradas comuns a todos os realistas. Essas premissas
são a centralidade do Estado, que tem
por objetivo central sua sobrevivência, a
função do poder para garantir essa
sobrevivência, seja de maneira independente – no que seria caracterizada a auto-ajuda – seja por meio de alianças,
e a resultante anarquia internacional.
Como
é possível notar há vários conceitos comuns dos realistas que giram em torno da
centralidade do Estado, por objetivo central a sobrevivência, a função do poder
para garantir essa sobrevivência e a preponderância da anarquia internacional.
O
Estado na visão dos realistas segundo NOGUEIRA & MESSARI:
Os
Estados são, portanto, unidades parecidas ou iguais do ponto de vista das
funções que desenvolvem. Para os realistas, os indivíduos (os líderes
políticos, os diplomatas e os militares, por exemplo) e os grupos de indivíduos
(burocracias e administrações públicas, entidades políticas, trabalhistas ou
empresariais) que atuam nas relações internacionais o fazem em prol e em
benefício dos Estados que representam[9].
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