segunda-feira, 29 de julho de 2013

11.1 RELAÇÕES INTERNACIONAIS E A IDEOLOGIA DO CAPITALISMO TRABALHISTA

O capitalismo trabalhista como ideologia, proposto por este livro, teria alguns aspectos internacionais a serem implementados para que a doutrina tivesse êxito em nossa opinião.
Para isso é preciso entender alguns aspectos da teoria das Relações Internacionais, antes de propor diretrizes que possam atacar vários espaços sociais, entre eles o espaço global ou internacional.
JÕAO PONTES NOGUEIRA E NIZAR MESSARI, em relação à introdução ao livro TEORIA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS dizem:

Hoje em dia, ouvimos dizer com frequência que o mundo está cada vez mais internacionalizado, integrado e globalizado. Mas o que se quer dizer, exatamente, com isso? Será que nossas vidas quotidianas, o andar da nossa economia, os altos e baixos da política ou a maneira como se enfrentam os problemas sociais são, realmente, afetados por acontecimentos que ocorrem longe daqui e por decisões tomadas por outros governos? Acreditamos que sim, e que o estudo das relações internacionais é fundamental para compreendermos o mundo em que vivemos.[1]


Desta maneira abordaremos as principais correntes de Relações Internacionais para adequar a teoria do capitalismo trabalhista e analisar em que correntes ela teria mais afinidade acadêmica.

11.2 A EVOLUÇÃO DA DISCIPLINA

Segundo NOGUEIRA & MESSARI o início da disciplina de Relações Internacionais se deu da seguinte maneira:

A apresentação convencional da origem e da evolução da disciplina de Relações Internacionais situa os primeiros passos para a formação da disciplina no período imediatamente posterior à tragédia da Primeira Guerra Mundial e nos rastros de destruição que ela havia deixado. O primeiro departamento de Relações Internacionais foi criado em 1917, na universidade escocesa de Aberystwyth, com uma preocupação normativa: os acadêmicos que se reuniram naquele departamento tinham como objetivo organizar uma disciplina em torno do estudo da questão da guerra e, mais precisamente, com a finalidade de livrar a humanidade de suas consequências nefastas. Era preciso, então, estudar o fenômeno da guerra e suas causas para poder evitar a repetição de tragédias similares às acontecidas na então chamada Grande Guerra.[2]

Em seguida houve a primeira cisão entre os teóricos de RI (Relações Internacionais):

Edward Hallett Carr, um diplomata britânico aposentado, escreveu um livro ao qual deu o título de Vinte anos de crise, publicado em 1939, poucos meses antes do início da Segunda Guerra Mundial. No livro, afirmou que a preocupação normativa dos primeiros acadêmicos da área de Relações Internacionais acabou por cegá-los. Segundo Carr, foi tal preocupação que obrigou esses primeiros acadêmicos da área de Relações Internacionais que obrigou esses primeiros acadêmicos a pensarem em termos do dever ser do mundo, em vez de estudar como o mundo realmente funcionava.[3]

NOGUEIRA & MESSARI continuam a mostrar que o debate começou a repartir os realistas, que defendiam como o mundo realmente funcionava dos idealistas ou utópicos que defendiam como o mundo deveria ser:

A concepção desses primeiros acadêmicos, a quem Carr chamou de utópicos ou idealistas, em problemas ético-morais, impediu-os de elaborar instrumentos analíticos que permitissem perceber os sinais anunciadores da proximidade da Segunda Guerra Mundial. Ao contrário desses idealistas, Carr definiu um segundo grupo que chamou de realistas, que estudava como o mundo realmente era e que defendia uma visão menos utópica e mais sintonizada com as dimensões do poder e do interesse que permeiam a política internacional. A caracterização feita por Carr desse debate como um confronto entre idealistas e realistas ficou conhecida na área acadêmica de Relações Internacionais como o primeiro grande debate da teoria das Relações Internacionais. [4]

É interessante este debate, que surgiu na teoria das Relações Internacionais, pois interessa a ideologia defendida neste Livro saber em que parte do debate poderia se inserir a ideologia do capitalismo trabalhista. Em seguida NOGUEIRA & MESSARI continuam:

Era um debate ontológico sobre uma disciplina recém-criada, em que as partes eram o dever ser dos idealistas e o ser dos realistas. O primeiro grupo queria estudar como mudar o mundo para torna-lo mais pacífico, enquanto o segundo grupo queria estudar os meios à disposição dos Estados para que pudessem garantir sua sobrevivência.[5]

Acreditamos que a ciência como um todo tem um duplo papel, que é em primeiro lugar analisar o mundo como ele realmente é; e em segundo lugar criticar o mundo como ele é propondo soluções alternativas viáveis e um terceiro objetivo criar uma ponte entre esses dois mundos (real e o ideal).
Por exemplo, na época da escravidão se adotássemos a linha dos realistas chegaríamos à conclusão absurda de que os negros deveriam ser e continuarem escravos por serem consideradas uma raça inferior, tudo isto com bases jurídicas, ou seja, leis amparando a escravidão de negros na sociedade, tais como a propriedade privada de escravos, e bases científicas, já que existiam estudos científicos certificando que os negros eram inferiores tais como a corrente do determinismo biológico que inclusive serviu de base posteriormente para a ideologia nazista.
O exemplo da escravidão é um exemplo de que a corrente realista na verdade atua como um legitimador da atual estrutura de poder vigente em uma determinada sociedade doméstica ou internacional em um determinado tempo histórico.
Se ficarmos apenas atrelados ao “mundo como ele é”, podemos nos sentir mais “seguros”, mas como a história demonstra nem sempre o “mundo real” é o mundo mais justo e o mais aperfeiçoado possível.
Em relação ao desenvolvimento dos debates NOGUEIRA & MESSARI dizem:

Com a chamada revolução behaviorista nas ciências sociais em geral, a crítica que passou a ser feita à área de Relações Internacionais deixou de ser ontológica e tornou-se metodológica. O segundo grande debate na área não foi mais um debate sobre o que estudar, mas como estuda-lo. Os realistas científicos defendiam maior rigor científico e maior influência dos métodos das ciências exatas. Criticavam, também, a falta de diálogo com outras áreas do conhecimento científico, nas quais avanços expressivos na formulação de métodos empíricos de observação e análise da realidade objetiva haviam sido feitos.[6]

Sobre o desenvolvimento dos debates de RI no final da década de 1960 e no decorrer da década de 1970, NOGUEIRA & MESSARI comentam:

Na área acadêmica, o surgimento de novos atores não-estatais na política internacional, como empresas multinacionais e organizações internacionais governamentais e não-governamentais, levou ao questionamento de premissas básicas do realismo. Assim, surgiram críticas à separação entre política doméstica e política internacional, bem como à divisão entre high e low politics (alta política, relativa à segurança; e baixa política, referente a temas econômicos, tecnologógicos etc.), e à primazia da primeira em relação à segunda [...] Começou a se falar da exagerada ênfase dos realistas na questão da guerra em detrimento de outras questões de política internacional, e surgiram críticas ao excesso de ênfase no conflito em detrimento da cooperação e da interdependência.[7]
NOGUEIRA & MESSARI demonstram que MICHEL BANKS apontou o surgimento do debate dividido em três paradigmas: o realismo, o liberalismo, e a herança Marxista[8].
Desta maneira iremos concentrar a análise destas três correntes no que interessa a ideologia do capitalismo trabalhista.

11.3 REALISMO E PREMISSAS BÁSICAS

NOGUEIRA & MESSARI ao comentarem sobre as premissas comuns do pensamento realista aplicável as Relações Internacionais concluem:

A grande diversidade e a ampla riqueza do realismo tornam a tarefa de definir premissas comuns a todas as vertentes do pensamento realista uma tarefa árdua. Contudo, das tradições herdades de Tucídides, Maquiavel e Hobbes, algumas premissas podem ser consideradas comuns a todos os realistas. Essas premissas são a centralidade do Estado, que tem por objetivo central sua sobrevivência, a função do poder para garantir essa sobrevivência, seja de maneira independente – no que seria caracterizada a auto-ajuda – seja por meio de alianças, e a resultante anarquia internacional.

Como é possível notar há vários conceitos comuns dos realistas que giram em torno da centralidade do Estado, por objetivo central a sobrevivência, a função do poder para garantir essa sobrevivência e a preponderância da anarquia internacional.
O Estado na visão dos realistas segundo NOGUEIRA & MESSARI:

Os Estados são, portanto, unidades parecidas ou iguais do ponto de vista das funções que desenvolvem. Para os realistas, os indivíduos (os líderes políticos, os diplomatas e os militares, por exemplo) e os grupos de indivíduos (burocracias e administrações públicas, entidades políticas, trabalhistas ou empresariais) que atuam nas relações internacionais o fazem em prol e em benefício dos Estados que representam[9].



[1] NOGUEIRA, João Pontes, MESSARI, Nizar. TEORIA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS: CORRENTES E DEBATES. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005. Pág. 1.
[2] Ibidem pág 4
[3] Ibidem 3
[4] Ibidem 4
[5] Ibidem 4
[6] Ibidem pag. 4
[7] Ibidem pag. 6
[8] Ibidem pág. 6.
[9] Ibidem pág 24.

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